Pedágio
na BR-364 está é barato
Professor
Nazareno*
A
BR-364, que liga o Estado do Mato Grosso a Rondônia e ao Acre, teve uma parte
privatizada recentemente. É o trecho entre as cidades de Vilhena e Porto Velho,
a suja e fedorenta capital do estado Karipuna. Já a partir do próximo
dia 12 de janeiro, as cobranças começarão a acontecer para o deleite da
população atingida. Praticamente todos os “sofridos habitantes”
de antes estão eufóricos e muito alegres. A classe política,
tanto a estadual quanto a federal, não esconde a sua satisfação e o regozijo com
mais este grande presente dado ao povo rondoniense. A exemplo das grandes
rodovias espalhadas pelo país, Rondônia também já tem a sua rodovia nas mãos da
iniciativa privada. “O progresso finalmente dará
as caras por aqui”, é o que se ouve das pessoas. Já é quase
consenso de que quando a privatização chega a algum lugar ou instituição, tudo
melhora.
Muito
antes dessa “abençoada” privatização, massas de turistas chegavam
aos montes para visitar Rondônia e também a sua imponente capital. Agora esse
contingente vai quadruplicar, pode-se ter a certeza disso. Os brasileiros
oriundos de outras unidades da Federação terão a partir de agora a oportunidade
única de ver o que é uma rodovia privatizada e como ela funciona tão bem. As
coisas começarão de fato a funcionar como nos países de Primeiro Mundo. Pagando
uma “ninharia” os novos turistas poderão ver in loco como
um povo pobre e miserável consegue militar politicamente na extrema-direita
reacionária e não demonstrar nenhum tipo de arrependimento. Verão também como a
produção do agronegócio promoveu um dos maiores desastres ambientais da
história da Humanidade. A impenetrável floresta amazônica foi derrubada e
transformada em capim.
Com
a privatização da BR-364, os turistas e forasteiros poderão acompanhar de perto
e até estudar como foram feitos os massacres de várias populações originárias locais
para dar lugar a cidades “pujantes e progressistas” como
Jaru, Ouro Preto, Presidente Médici, Pimenta Bueno e tantas outras. Além do
mais, a partir de agora certamente os novos donos da estrada farão jorrar mel
e leite da sua rodovia. Em pouco tempo ela será toda duplicada, claro! E
quem quiser ver “de camarote” como foi feita a maior destruição de uma
floresta tropical é só pagar o pedágio. Os preços de tudo vão baixar. Vejam só:
a privatização só pode mesmo ser coisa de Deus, pois a Energisa, por
exemplo, depois que chegou a Rondônia tudo aqui melhorou: energia boa,
barata e farta. E se você nunca foi atendido num hospital “Built to
Suit” agora vai pagar pedágio num sistema “Free Flow”.
Esse
baita presente de Ano Novo que Rondônia recebeu deve ser por que muitos
de seus habitantes são incultos, conservadores e da extrema-direita. “E por
isso, eles não reclamam de quase nada”. Óbvio que nenhum dos 3
senadores, dos 8 deputados federais do Estado e dos 24 deputados estaduais
sabia dessa cobrança. Muitos desses políticos, dos prefeitos do interior e até mesmo
o governador do Estado quase não falam sobre tudo isso. E como “quem cala,
consente...”. Mas a maioria deles espera receber votos da
massa ignara em 2026. Já ouvi algumas pessoas, claro que de direita, defenderem
a privatização de todo o Estado de Rondônia: as hidrelétricas, o rio Madeira,
que praticamente já tem dono, o CPA, o rio Machado, o ar que respiramos, o rio
Candeias, o céu azul, o que ainda resta de floresta e até a própria capital
estadual. Quanto será que Porto Velho vale a preço de hoje? Ninguém percebeu
que “Quando tudo for privado, seremos privados de tudo”.
*Foi Professor em Porto
Velho.










